O Fogo Do Inferno |
7.3.02
Como prometi, compareci ao show realizado último dia primeiro, sexta-feira, de algo auto-intitulado acid pop art. Vou logo deixar claro que não sei o que isso. Sim, é claro que eu já ouvi falar de pop art e suas ramificações. O problema foi com o "acid" atrelado ao conceito. "Acid" como em "acid jazz"? Ou "acid house"? Então para mim continua o mistério. Nesses casos, o "acid" também não me remete a nenhuma qualidade específica, salvo as da matéria - quimicamente falando -. Ácido como o oposto de alcalino. Se for este o caso, houve então uma falha na escolha do título do evento. Como se sabe, a "Soda Cáustica" tem justamente propriedades básicas, adstringentes, e em contato com alguma acidez produz sal e água como resultado. Se eu não me engano, também é, muito diluída, o componente básico da quiboa, que mata os que insistem em bebê-la. Tudo fica cada vez mais insondável. Se "acid" tem algum significado simbólico ou estético - e não duvido disso -, então "alcaline", evidentemente, serve para designar um sinal oposto no direcionamento artístico, embora não seja usado com frequência. Gostaria que houvesse, por exemplo, o "alcaline trance", cuja audição comparada à do "acid trance" solucionaria esta questão rapidamente, deixando somente um provável resíduo salino e aquoso na caixa de som. Como isso não existe, só me restará agora comprar os trabalhos da Alcalina e da K-Waves ou da Belasco (as duas últimas são as bandas que se apresentaram no evento de acid pop art) e ouvi-los com calma. Alguma luz deverá surgir. Ou então descobrirei que o resultado, além de água, é uma banda cover de Raul Seixas. Mas nem tudo foram dúvidas. Uma lenta percepção da intenção dos artistas envolvidos foi sendo pressentida qundo dei com as gravuras expostas no local. Pelo menos no departamento visual, a noite já teria me surpreendido bastante. O rapaz que as criou tem uma grande percepção do pop e de suas referências históricas, remetendo seus trabalhos a Liechenstein, nos closes granulados, e a Warhol, com o uso do espaço vazio (poderia ter posto aqui uma reprodução do díptico "Electric Chair - blue", mas seria facilitar demais) e da repetição. Mas ele tem mais a oferecer do que meras citações. Suas ampliações são plenas de tensão sexual e angústia e, ao contrário de Warhol, seu olhar é tudo menos indiferente. Gostei dessa iniciativa e, com certeza, ela elevou em muito o nível da coisa. Não perderei a próxima exposição do tal Ticiano Monteiro e nem precisará ser em algum local específico para isso, como provou o ambiente, e o nome, do bar Kigula. Havia mais gente do que o normal da área. Já passava das dez quando as bandas começaram a se apresentar e os afoitos que chegaram cedo já suavam em bicas, correndo risco de desidratação. Fiquei sabendo que a primeira banda estava estreando naquela noite, embora o guitarrista fosse o Robério da Dago Red. Sendo assim, completamente desculpável o jeito paradão dos rapazes. O cantor, de olhos pintados e cabelo desgrenhado, ficou estático durante boa parte do show. É nisso que dá iluminar demais o underground: a garotada não fica à vontade. Mas a banda é boa sim. Principalmente a cozinha, que deixa o baixo marcando o tempo para que a bateria possa ficar rodando. O menino espanca as peles e pratos com vontade e muito bem, entusiasmando o resto da banda, num estilo antiquado, mas pessoal. O som pode ser colocado dentro do gosto pop alternativo sem problemas, com distorções maneiras, toques de noise (as velhas improvisações em cima de microfonia, que ficam um pouco anticlimáticas em meio às melodias) e de Weezer. O vocal fica bem destacado por sobre as guitarras, que seguem um padrão distorcido, mas não muito barulhento, mais para que se entenda as músicas direitinho do que por medo de ousar. Acho que a minha disposição alegre de espírito no momento também ajudou muito na hora de avaliar o som dos rapazes. Ou então foi o calor, que se refletiu no som deles, impedindo que soassem distantes. Se isso é o que eles são capazes de conseguir no primeiro show, então os fãs do gênero podem se sentir no direito de aguardar algo ainda melhor no futuro. Nada absurdamente original, mas bastante competente. Não estou assobiando nenhuma música até agora, mas isso não é defeito. Pode ser questão de tempo. O mesmo não vale para a K-Waves. Não vou dizer que já tinha prestado atenção neles e nem sabia o que eles faziam. Já tinha dado para perceber que eles já tinham mais estrada pela xerox das letras, com direito a proposta conceitual e tudo, distribuída na porta. O texto foi feito por alguém pelo menos preocupado com o modo como sua banda será compreendida e isso já é bom. Fiquei com duas interessantes imagens poéticas na cabeça até o início do show e vou reproduzi-las: "You got no dreams/ so when you're monday, I'm rather sunday" e "My killing spree was over but no one had died/ For all my life, invaders would try to take control". É para se ficar imaginando o que pode estar escondido em meio aos vocais indecifráveis de outras bandas que cantam em inglês por aqui. Faltou a Belasco fazer a mesma coisa e nos dar uma chance de saber do que falam. Mas tenho que admitir que não esperava grande coisa do som, ainda mais por ser um trio, e por outras razões, associadas à imagem de porra-louquice de alguns membros. Ao contrário do primeiro show, o som deles ficou embolado, com uma voz mais difícil de acompanhar. Mas, logo na segunda música, já tinha dado para perceber que o negócio era outro. A K-Waves tinha inventado um pequeno clássico pop-radiofônico instantâneo e o público - se não fosse o caso de esfregação de costas - parecia ter atinado com isso. Foi inesperado ouvir um refrão cheio de pá-pá-pás, com linha de baixo sozinha. Todas as músicas pareciam uma cápsula do tempo sem controles estabelecidos para a frente ou para trás. Juro que escutei soul no meio de uma das mais grudentas. O mais engraçado é que eles nem parecem ter consciência das composições, preferindo trazer o instrumental para o primeiro plano e subentendendo o vocal, deixando tudo um pouco urgente e em aberto, como o Pavement dos primórdios. Mas talvez seja este o seu trunfo, pois a banda ganha uma força que não é facilmente encontrada em coisas do gênero. Mas talvez eles soassem melhor se desacelerassem algumas músicas e viajassem mais no colorido das próprias harmonias. A principal diferença em relação à Belasco, embora ambas tivessem pontos em comum, é a preocupação da dupla guitarra-baixo em mostrar excelência. Enquanto o garoto magro, que tem uma cara de living dead stoned, cantava e criava um estilo derretendo riffs do Jon Spencer ou do Sterling Morrison - com um controle das funções da guitarra de dar inveja nos que não aprenderam um instrumento -, o garoto gordo demonstrava que não queria discrição, empilhando frases construídas em clima de contraponto. E cantando junto. Faltou aumentar mais o som do baixo. Só poderia sobrar para a baterista, que tinha que ficar mantendo a marcação sem se soltar demais, o que aumentava mais o toque sixties. Gostei. A K-Waves pode ser colocada fácil no patamar de outras bandas com alta competência instrumental, como a 69% Love ou a Fontana, até superando ambas, em alguns aspectos, mas perdendo em equalização e experiência, a não ser que seja intencional aquela tonalidade compacta. Mas isso nem sequer importa. O importante são aquelas músicas, que eu já me peguei murmurando algumas vezes. Vamos esperar os respectivos CDs demos e ver se a coisa não é só ocasional. Comente 25.2.02
Final de semana em Fortaleza é uma coisa cinza até para quem tem grana. No sábado, fiquei errando pelas imediações do Centro Dragão do Mar, procurando o que fazer, e quase entrei em pânico ao constatar o quanto esta cidade tem a oferecer, de diferente, em matéria de diversão: nada. Imaginem que um ser da noite chegue aqui sem conhecer ninguém, sem morrer de amores pelo turismo sexual e sem gostar de música suave tocada ao violão, mas com dinheiro para gastar. Ele tomará a primeira condução para a Bahia ou Pernambuco, lugares que dão mais valor ao turismo cultural. Até a dramaturgia fica menosprezada, com bons espetáculos, quando os há, relegados a lugares fora do eixo de entretenimento noturno, e aí eu me refiro, sim, ao TJA. Muita gente deixou de ir ver, por exemplo, a iniciativa do pessoal do Porão por causa do local e do horário. Que dizer então da dança, da música erudita e da cultura de rua e popular off-Carnaval, feita pela gente pobre e não pela classe média? Não pude identificá-los em meio ao tumulto de chopes de vinho e esquetes de humor de baixo calão. É claro que não falta gente com empolgação produzindo tudo isso por aqui, mas enquanto a Feira do Jiriquiti, na Escola Técnica, promove uma leitura de poesia, a Praia de Iracema deixa a desejar até mesmo nisso. Nenhum teatro marginal, salão ou anfiteatro à vista promovendo nada num sábado à noite. Ambientes privados, desse tipo, inexistem naquela área e se fizéssemos uma conta das proporções da cidade, descobriríamos que, se São Paulo fosse do tamanho de Fortaleza, ainda teria mais de doze teatros não vinculados ao governo. A cultura, nesse caso, fica resumida cada vez mais aos incentivos estatais, que deveriam, em tese, promover coisas que não se pagariam sozinhas. Quanto ao resto, as chances também não são espetaculares. Fica quase impossível conhecer gente diferente em meio a bares coalhados de playboys, nightclubs exíguos, mas convencionais e música ruim preenchendo o ar. Se, por algum acidente, aquela tal pessoa topar com a porta de algum local mais bem pensado, ficará desconfiada. Eu, de cabeça, não estou conseguindo lembrar de nenhum. Por mais estratificantes que possam ser as discotecas e bares temáticos, eles acabam tendo importância em um lugar que parece amar acima de tudo a igualdade de gostos. As casas de forró são diversão garantida para quem curte, os bares gays estão em todo canto e os restaurantes com música ao vivo tem público certo. Os velhos rock'n'rollers também não ficam desamparados no quesito clichê, com uma infinidade de bandas cover. Um antigo reduto do techno como o Órbita, fundado por um DJ irlandês há uns quatro anos, hoje em dia só fica cheio quando tem show da Matutaia ou colegas. Será que somos assim tão provincianos que até nossos modernos estão em atraso com o mundo? Quando abriram o XTZ, não tem muito tempo, eu achava que a proposta de começar às três da manhã não faria muito sentido numa área onde os clubbers não teriam onde ficar até as duas. Mesmo assim, fiz questão de bater o cartão lá, já na terceira noite. Muito bem produzido, o ambiente do XTZ ganhava pontos pelas mesas reservadas, naquele modelo de cafeteria americana, muito confortáveis, e pelo som, que caprichava no trance. Mas, como em outros lugares que se consideram a única opção, os preços eram de primeiríssimo mundo. Estive lá no auge e o point estava com menos da metade da capacidade. Ao sair, lá pelas seis e meia da manhã, a sensação foi boa, como se o fuso horário tivesse mudado, e a reação lógica foi partir para a praia. Mas, por mais que o lugar fosse acolhedor, não dava para arcar com os preços, e logo, logo, não existia mais XTZ. Talvez, se na época existissem outras opções, ele poderia ter durado mais, mas duvido. Outros pontos, como o Universal Sport Bar, tiveram períodos de bastante rotatividade, com uma sexta-feira fixa que contava com bandas conhecidas ou nem tanto, mas é um mistério como as coisas vão sumindo por aqui, se deixando morrer até que só abrem em ocasiões especiais. Quem lembra do Cidadão do Mundo e de suas noitadas eletrônicas ou seus shows ou até suas noites normais com uma classe diferente de música todo dia, sabe do que estou falando. Foi acabando, foi acabando, e, em vez de se consolidar como um local atraente, simplesmente bateu as portas. Hoje em dia está pintado de roxo, sediando um comitê político. Só dá para concluir que, seja climatizado e confortável como o Universal, seja quente e mal posicionado como o Cidadão, uma boa casa noturna só poderá vingar por aqui às custas de muita insistência, mente antenada e altruísmo. Originalidade, alto nível - no atendimento e nos preços - e idiossincrasias só atrapalham. Sobre o sábado? A solução foi o Carlito's, um bar à meia-luz, que não tenta roubar ninguém mas tem um ambiente dos melhores. Tão escondidinho que ainda nem pegou urucubaca. Roll over Bethania... Comente 21.2.02
Não sei até onde pode ser ofensivo quando alguém resolve dizer o que pensa de uma situação, pontuando a narração com fatos de domínio público. Mas, se alguns não gostaram, devo ter então atingido algum nervo exposto. Mas o ponto de vista colocado aqui não conteve ódio ou xingamentos. Relendo agora o que escrevi, não achei que tinha falado mal de alguém em particular. Pelo contrário: tentando muito esquecer que todos se conhecem, ao menos de vista, fiz o possível para ver se me concentrava no lado mais público das pessoas ou grupos de pessoas. Quanto ao carinha da Kohbaia, parecia uma critica positiva quando eu terminei. O mesmo valendo para a Rebel Rockets. O texto sobre zines não disse mais que a minha opinião pessoal sobre os mesmos, ao acabar uma leitura aprofundada. Com certeza, devo ter lido com mais atenção e respeito que uma grande parte dos seus eventuais leitores. Ao anexar uma janela de comentários, tinha quase certeza que a mesma teria pouco de área de discussão e mais de rusga pura e simples. Era exatamente sobre o que eu falava ao escrever sobre bloggers, ainda no primeiro post. Mas não é por isso que eu vou aguentar ataques mal-educados num território que me pertence e onde eu ainda tenho voz de comando. Teve gente que pediu com cortesia, como o "N. é. b. a.", que eu vou atender, e teve os mais pessoais, como o "..., tatu", limado, que exagerou. Só que não vai dar para mudar o olhar meio sem paciência com algumas coisas que descambam para a idiotice, e, se este blog está entre elas, paciência. Aviso: ao excluir um comentário, tenho que apagar a janela todinha, portanto sejam mais cuidadosos no nível do que escrevem para que eu não tenha que apagar os mais legais por causa dos mais imbecis. Comente 18.2.02
Alguém aí fuma? Os que responderam que sim talvez já tenham percebido que o Ministério da Saúde obrigou as indústrias produtoras de cigarros a colocarem alertas aos fumantes em um dos lados da embalagem. Os avisos variam do cômico, como aquele do homem impotente, ao bizarro, como imagens de cérebros carcomidos. Comprei hoje uma carteira que tinha uma foto de uma mulher com expressão de intenso sofrimento entubada num leito de hospital. Mórbido. Será que ninguém percebe o ataque à liberdade de escolha que isso traz consigo, sem falar nas regras mais elementares de sedução do consumidor? Já não bastasse a campanha, fascista mas velada, de isolamento do tabagismo comandada pelos que acreditam que saúde deve ser contagiosa, agora é preciso suportar o bombardeio de informações agressivas estampado no próprio artigo. Algo desnecessário, pois não há razão para se acreditar que exista algum brasileiro que não esteja a par, até mesmo instintivamente, dos malefícios causados pelo fumo, e sem a menor objetividade, uma vez que estar ciente desses efeitos não é o único motivo que leva alguém a parar de fumar. Há a culpa inserida no ato, aumentada pelas pressões do meio, que, ao tornar-se incômoda, geralmente leva às primeiras tentativas de largar o hábito e isso já é por si um lembrete constante. Não me lembro de nenhum esforço maior dos responsáveis pelo controle do abuso de substâncias para impedir a venda de tabaco a menores de idade - o que não seria inócuo, já que parece ter funcionado até bem com o álcool -, nem para pôr radiografias de coronárias entupidas em vidros de maionese. O argumento não é absurdo, já que tudo tem a ver com saúde pública e com a maneira como será gasto o dinheiro do contribuinte. Se os afetados pelo cigarro lotam os hospitais do estado, ocupando unidades de tratamento intensivo, vítimas da segunda, ou terceira, causa de óbitos no país, não fará mal lembrar que a má alimentação e a obesidade são, de longe, a primeira. Também não é exagero dizer que certos tipos de comida podem ser considerados essencialmente perigosos, porque há gêneros que são completamente inúteis, produzidos unicamente para agradar ao paladar, e cujos efeitos a longo prazo podem ser devastadores para o sistema circulatório e digestivo. Se sete em cada dez casos de câncer de pulmão são frutos do cigarro, nove em cada dez de câncer de cólon são causados por excesso de carne vermelha. Agora, qual das duas informações é mais conhecida? Àqueles que acham que é radical demais tentar comparar o consumo de comida ruim, que mesmo sendo lixo ainda é alimento, com o de algo que é institucionalmente chamado de droga, lembramos que o álcool - que, além de destruir o fígado rapidamente, tem efeitos sobre o rendimento e o comportamento e influi decisivamente no número de acidentes de trânsito, afetando os cofres públicos de diversas maneiras - é desde sempre a droga mais pesada de todas e a mais difícil de largar, e até hoje é um exemplo cínico de respeito à liberdade do indivíduo, podendo ser encontrado e consumido em qualquer lugar por pessoas que nem reparam nas letras miudinhas aconselhando a que se beba com moderação, um gole por vez até acabar a garrafa. E não adianta rebater afirmando que o cigarro também atinge passivamente, porque quando um bêbado encrenqueiro cisma com você ou bate no seu carro, você só está sofrendo os efeitos dos copos que ele tomou. Ainda assim, só os fumantes se sentem realmente acuados cada vez mais, amaldiçoando o dia em que tragaram pela primeira vez, porque ninguém os avisou de que estavam entrando no caminho da intolerância burra, nem de que o fato de representarem uma parcela definitivamente muito grande da população seria mascarado em minoria insignificante, a ser segregada. Nunca um hábito charmoso passou a ser sujo e degradante com tamanha força, sem ser tornado logo ilegal de uma vez. Pense bem no seu livre arbítrio, fumante, quando for acender o próximo companheiro de todas as horas, e ver os anéis de fumaça saindo de sua boca, pois talvez a próxima contribuição do programa espacial para a vida comum seja um capacete hermético para fumantes. Ou, quem sabe, você tenha que usar um botom identificando sua repugnante condição social. Comente 17.2.02
"Gente de festa" Estava por acaso num café na avenida 13 de Maio pensando em quanto as pessoas são ridículas quando de repente um conhecido meu que faz zines, ou edita um blog, ou, lembrei, toca em uma banda de rock alternativo, veio se aproximando. Não deu tempo de pagar a conta e sair a tempo, de modo que o encontro não pôde ser evitado. Respirei fundo e me preparei física e psicologicamente para uma conversa realmente óbvia, coisa que eu já sabia ser possível tendo em vista o local em que eu quis parar para folhear um livro cedido pela Arte & Ciência, na maior cara-de-pau. O rapaz percebeu o meu desconforto em segundos e, assim pareceu, acabou desejando provar a mim que poderia ser menos previsível. Convidou-me para acompanhá-lo a uma festa que estaria acontecendo nas proximidades da José Bastos, num prédio esquisito que eu conhecia de passagem. "Festa de embalo", ele disse, "está rolando há dias". Bem, não sou de dispensar festas, principalmente dadas por gente que eu mal conheço. As possibilidades de se sentir deslocado são praticamente infinitas e isso costuma ajudar na hora de conseguir sexo, também. Sempre pode haver alguém tão deslocado quanto você, que ficará feliz de encontrar companhia. Acabamos chegando lá antes do sol se pôr e o apartamento estava lotado. Só havia pregos, como imaginei, e o som era o mixuruca Belle & Sebastian, o que já era um sinal positivo (quero frisar aqui que não tenho problemas com a banda, e o fato de ter havido um hiperdimensionamento do trabalho deles, em detrimento da noção de que a música é puro eurotédio sensível, não me incomoda nem um pouco. Tenho quase a coleção completa.). Havia chances para qualquer observador atento mostrar a si mesmo que o mundo muda, mas não a classe média. Para minha surpresa, havia gente conhecida no meio, uma ou duas meninas de não-sei-onde, praticamente encenando "Calígula" no sofá. Na mesinha de centro, bebidas com teor alcóolico superior a 50%, como gin Tanqueray, e carteiras vazias de Belmont demonstravam que ninguém estava para brincadeiras. Logo vi que todo mundo ali estava se esforçando pra valer para provar que a festa estava indo fundo, o que é louvável e lembra o amor à diferença apenas pela diferença, algo vazio e sem frescuras. Ao passar para o banheiro - um capítulo à parte -, descobri que havia um pequeno grupo formado na porta do quarto principal do apartamento muito interessado no que parecia estar acontecendo na cama. Fui logo me intrometendo no meio do pessoal e o que vi, não nego, conseguiu me fazer subir meia sobrancelha. Não entendi como a moça estava conseguindo fazer aquilo, mas alguém precisa avisar a produção do Jô Soares urgentemente. De volta à sala, com a boca seca, consegui um lugar no braço de uma poltrona e fiquei por um instante a observar como há beleza na decadência total. Não que eu considere trepar uma coisa decadente, mas é que às vezes há a possibilidade de se achar Henry Miller um mero tabulador de fetiches burgueses e àquela altura eu tinha que me esforçar para não me surpreender com a vontade da turma de se esfregar o tempo todo. Os gays, num sinal claro de que a festa ainda era território hetero, só passavam dos beijos no banheiro, mas o resto do pessoal já tinha se juntado no carpete e os toques não eram menos que ginecológicos. Talvez fosse o loló. Não sei por quê mas me veio à mente a teoria do homem-gabiru, quando eu me apercebi de que todo mundo era lindo e bem-nutrido, alimentado na infância com muita farinha láctea, provando que cearense ainda não é sub-raça. Me perguntei se os banheiros do Geo ou do Christus abrigam tanta devassidão hormonal e lembrei que tenho fantasias sombrias mesmo, loucas, com banheiros de escola secundária. A fome deles por coisas ilícitas, aliás, lembrava bastante esse tipo de ambiente. Foi assustador me deparar com cruzamentos improváveis entre aspiradores de pó e dragões, instigados pela tenra idade, entretidos com toda a artilharia do métier, como se brincassem de lego. Os truques que eles descobrem para fazer seus produtos renderem são sempre criativos, é verdade. Coisas mais intrusivas continuavam exiladas no banheiro, mas todo o processo se desenrolava ali, na minha frente, enquanto eu pensava em quanto a polícia iria cobrar para não levar todo mundo em cana por corrupção de menores, som depois das dez e sei lá o que mais, sem falar no principal. Deu vontade de ser sacana e chamar logo os homens para incendiar de vez o ambiente. Lá pela uma da manhã, a dona da casa estava num momento passional com a namorada - o único sinal de afeto que eu vira na festa toda -, debruçada numa janela de frente para a José Bastos quando lhes deu na telha chamar um travesti que fazia ponto logo em frente. "Pronto", pensei. Todos os presentes aplaudiram a idéia efusivamente e começaram a estabelecer um ruidoso contato. Em dez minutos, ele entrava pela porta, depois de chocar o porteiro e o vigia. Comente
(continuação)
Nunca tive contato com esse tipo de profissional, que me pareceu desde sempre uma das coisas mais fascinantes que uma cidade grande pode produzir, mas aquela era uma chance de ouro. Parece que o resto da festa pensava assim também, pois logo uma verdadeira roda se formou ao redor da despachada Carla, enchendo-a de perguntas. Confesso que é reconfortante saber que existe gente que é autêntica e sem máscaras desde o momento que acorda. A aceitação que ela parecia ter de si própria, sem nenhum pudor ou prevenção, era o que gente mais dada a romantizar a própria mesquinharia gostaria de comprar de seus analistas. Era algo perfeitamente natural, mesmo vindo de alguém que tem problemas em lidar com a identidade que seu corpo lhe confere. Começou a bater o pezão ao som de "Let's Dance", que rolava no momento e "conheço essa música", ela disse. "Que apropriado", pensei. É lógico que todo mundo queria saber como ela tinha chegado ao ponto de fazer ponto e então ouvimos a história da vida dela desde, praticamente, seu batizado. Coisa braba. Parece que o travesti brasileiro é conceituado na Europa, então muitos vão para lá, mas rola às vezes uma exploração que não raro beira a escravidão. Ela falou que tinha passado um tempo na Itália e havia chegado a ficar semanas trancafiada em um quarto sórdido com mais cinco colegas, à base de pão e água, saindo apenas para encontrar um cliente e ainda por cima apanhando. Só conseguiram escapar porque os carcereiros, que também tinham negociado a viagem do Brasil até lá, foram presos numa piazza ao tentar passar êxtase e se recusaram a dizer onde moravam. Depois de doze horas sem água, elas conseguiram derrubar a porta e saíram pelas ruas de Florença num estado miserável e sem entender uma palavra de italiano, até que conseguiram chegar na embaixada. A bicha vira Florença. O pessoal, se ela dizia a verdade, fez o possível para encobrir o escândalo diplomático e mandou todas de volta em três dias. Nunca saiu em jornal nenhum, claro. Ela também tinha dado um tempo em São Paulo, quando ainda não era propriamente travesti e contou para a gente que fazia michê na Boca do Lixo, o que lhe rendia uma boa grana, mesmo de dia, porque a área tem engravatados que adoram relaxar no horário de almoço, então eles vão à cracolândia, compram cocaína e alugam um travesti que os coma. O que é engraçado porque, quando perguntamos se ela iria fazer a operação, a resposta foi "estão loucos? Se eu cortar o bilau fora, perco o instrumento de trabalho. Travesti brasileiro come muito mais do que dá". Depois de beber metade do vinho e pegar uma carteira de cigarros de um rapaz que não conseguiu esboçar um movimento enquanto ela esteve presente, Carla nos deixou, quinze reais mais rica, e voltou para o seu elemento, em meio a mototaxistas e chefes de família católicos. No fim, ela foi a pessoa mais cosmopolita que eu encontrei em muito tempo, e às vezes é assim, você conhece as pessoas mais interessantes nos locais mais óbvios e pronto. Esse breve contato com o mundo de Carla Sandra foi muito mais interessante do que assistir às tentativas bobas que os convidados da festa faziam para parecerem adultos se divertindo de modo selvagem. Isso foi bem cansativo, em todos os sentidos. Nada contra o cinemão norte-americano ou contra a TV influenciada por ele, mas sempre é chato e frequentemente assustador perceber como existem pessoas, jovens principalmente, que vivem como se estivessem atuando em algum filme idiota patrocinado pela Adidas. Mas é inegável que eles continuam sendo lindos, mesmo perdendo no xadrez para uma ameba. Comente 14.2.02
Estive refletindo sobre zines ultimamente. Confesso que não acredito que se pode encontrar vida inteligente nesse tipo de publicação, como afinal na maior parte dos bichos que arrastam atrás de si a cauda de alternativo. Me digam: é intencional que a qualidade dessas coisas seja tão rasteira, para que os neófitos não se sintam acuados e comecem a achar que devem pensar no nível do que escrevem? Se for assim, estamos diante de um tipo de albergue mental, um meio no qual até os mais pobres de espírito sintam-se à vontade para entrar e dar sua opinião, que, como sempre, ganha razão por ter sido impressa. Tive acesso a três dos últimos esforços dos zineiros fortalezenses e fiquei triste pela quantidade de bobeira inclusa, de fato ou alusivamente. Deu vontade de beber quiboa e morrer.
O "Zinezero", por exemplo, que sinto por não ter em mãos, me deu ganas de ouvir a música "Alguém Aí", do Ponto Chic, que apresenta uma verdadeira radiografia dos adeptos desse mundo underground. Como foi composta pensando no sudeste, deveria ser de admirar que ela tivesse tanto a ver com a cena daqui, o que, se pensarmos melhor, é aterrador, já que podemos estender a abrangência desse pensamento unificado a todas as cidades grande a oeste de Istanbul, e mais o Japão. Ao apresentar críticas de shows, entrevistas com "personalidades" do meio e um sutil direcionamento contra certas entidades do meio musical, o fanzine do pessoal do Monte Castelo fica no meio termo entre o papo de comadres e a ingenuidade desprendida de quem faz porque gosta, mas não dispensa uma inclinação para o lado dos amigos. O "Thorazine", que nem sei se ainda sai, feito por gente que lida com Comunicação Social, é, com o perdão da palavra, um enxame só, desde o título. Se a intenção era provocar sensações semelhantes às do velho sossega-leão ou ganhar patrocínio de algum laboratório, o caso não era para jornalismo marginal. Algumas pessoas precisam aprender que escrever não é simplesmente por no papel o que se fala. Quanto ao "Não Me Noie", este é usado para nos presentear com a visão de mundo de alguém que já teve a sorte de descobrir, para o resto da vida, o papel que deve desempenhar: o de nerd, como o próprio nos diz em seu indispensável blog. E eu que pensava que até as leitoras de "Capricho" tinham malícia para saber que testes de personalidade são redutivos demais. Então não há motivos para se pensar que o garoto vai se desviar um milímetro só da cartilha de comportamento nerd, embora eu tivesse a impressão de que nerds fossem figuras acima de tudo não-convencionais, com um apurado senso de estética em relação a coisas que outros não param para perceber, como bonequinhos de super-heróis e seriados antigos. Hoje em dia, até esse tipo de coisa ficou manjada e fácil de imitar e comprar por alguém à procura de identidade. A palavra "tribos" começa a ter cada vez mais propriedades gástricas sobre mim. Quanto ao zine, não chega a tornar as coisas interessantes quando define bandas em duas ou três linhas, nem quando deixa entrever a ânsia do rapaz por aceitação. Se melhorar, eu aviso. Comente |